CAPÍTULO 8
Eu abri o olho de assim meio de uma vez ouvindo seu Alcides, que mora do lado de casa, tocando aquela viola junto com os amigos tomando uma pinguinha e cantando uma modas. É. O muro sem reboque e baixo ajuda a deixar a melodia entrar pela veneziana de ferro. Se ao menos vidro naquela janela tivesse eu colocado. Tá tampada só com essa tela anti-mosquito só. Aqui, vidro não precisa né? Calor faz demais.
Só às vezes no domingo quando eu passo do ponto no Tim maia, é que me deixava raivoso quando seu Alcides pegava sua viola com ypioca. Mas que culpa o homem tem pela minha cabeça que lateja que nem pipoca na panela ué?
E no canto da viola eu ia. Levando o começo do dia pra não sei onde ainda.
Eu arriei meu cavalo, quando estava escurecendo, pra roubar uma moreninha, na banda do rio pequeno. Eu cheguei na casa dela, meia noite mais ou menos.
Fim das contas é domingo. Dia do povo ficá contente. Eu também fico. Olha lá. Daqui da janela dava pra ver a galinho correndo lá no quintal da casa da dona Zélia, sabendo que seu destino de galinho e de pescoço inteiro é curto. Parece que o animal já sabe que vai morrer. E nóis não precisa nem chegar perto com faca. E só ficar meio de lado, falar baixo, combinar como é que vai pegar o bicho, estratégia, estratégia. Ele nem precisa ver nem entender, mas sabe que é dele que a gente fala e pensa.
Olha, às vezes tinha vontade de se um galinho que vai morrer.
Ela já estava esperando, na hora que nós marcamos. Os seus cabelos brilhavam, douradinho de sereno.
Eita papo besta.
Mais olha lá. A Zélia pegou o galinho, coitado, até parou de agitar as penas. Mão no bico e a outra segurando por trás as pena da asa. E vai lá pro fundo. Ela diz que prefere discrição, mas a molecada até a cerca de madeira podre vai pulando pra ver a Zélia cortar o bicho. Também, ela sempre diz que quem ajudar a despenar e limpar, ela convida pra almoçar.
Por você tenho penado, minha vida era sofrendo, meu dormindor variava, no sonho estava te vendo.
Tava na hora já de ir buscar o meu franguinho lá no Tim Maia.
Na hora que nós partirmos, sorrindo ela foi dizendo, mas que cavalo tão lindo, que a ferragem vai batendo. Este é meu trovoada, já sabe o que estou fazendo. O macho estava raivoso, no freio estava mordendo, pois ele está adivinhando que vai pousar no sereno.
Peguei o troco do mercado de ontem e fui. No meio do caminho olhei pro pé pra lembrar que sai de meia e chinelo com um calor desses que fazia. Eita bicho mais burro. Passar de louco agora no meio de um domingo. Ser arremedado no bar até vai, já tava acostumado mesmo, mas se Maria passasse ali, na travessia da travessa. Ela às vezes compra frango lá de domingo também. Olha, fiquei ali bem dizer um tempão parado antes de atravessar a rua pra pegar o frango ou então para voltar pra casa e tirar a meia. Andei mais um cado, e meio que na esquina antes, o bar do Tim Maia, já tava ali, dava pra ver. A fumaça da churrasqueira de tambor, o povo tudo de bermuda e barriga de costeleta de porco, cerveja,e pinga. Aquelas barba tudo pra fazer e alguns já meio tombando no meio fio. Então, olha lá.
Sandália laranja, vestido azul, blusa laranjinha também. Cabelo amarrado com pauzinho, parece, descendo. De costas... Eu com minha meia no meu pé, calorzão desse. Ai, não dava.
Nem sei quanto tempo fiquei ali. Parado, sem ir nem voltar, sem respirar, nem piscar de normal da vida. Encostei-me no muro da viela então, e fiquei, esperei. Era Maria.
Ela foi, pegou o frango, ainda de costas pra mim. E virou. Pra mim, pra viela. Ai minha Nossa Senhora, e essa meia no pé! Cacilda, eu tenho que dá fim nesta moda! Arranquei as meia do jeito que tava no pé e escondi atrás do poste, quem passava na rua achava a coisa mais esquisita: o desespero era tamanho, de ter que tirar correndo, de elástico velho que prende na ponta do dedo, furo no calcanhar, até rasguei um pedaço. Se não fosse o muro, cabeça na guia de tombo repentino arriscava acontecer, mas arranhado de susto de desequilíbrio ficou no meu antebraço. Quando olhei de novo, ela já tava assim, uns seis passos de mim, ai meu Deus.
Mas não era ela não. Nem de longe parecia. Nem cabelo igual tinha. Nem gingado de Maria tinha, nem olhar de carinho fundo de Maria tinha.
Engraçado de como que a gente vê as pessoas que a gente quer, seja onde for que esteja a gente.
Os olhos dela encheu d’água, despediu com a voz tremendo, Adeus casa dos meus pais, adeus chão do rio pequeno.
Só às vezes no domingo quando eu passo do ponto no Tim maia, é que me deixava raivoso quando seu Alcides pegava sua viola com ypioca. Mas que culpa o homem tem pela minha cabeça que lateja que nem pipoca na panela ué?
E no canto da viola eu ia. Levando o começo do dia pra não sei onde ainda.
Eu arriei meu cavalo, quando estava escurecendo, pra roubar uma moreninha, na banda do rio pequeno. Eu cheguei na casa dela, meia noite mais ou menos.
Fim das contas é domingo. Dia do povo ficá contente. Eu também fico. Olha lá. Daqui da janela dava pra ver a galinho correndo lá no quintal da casa da dona Zélia, sabendo que seu destino de galinho e de pescoço inteiro é curto. Parece que o animal já sabe que vai morrer. E nóis não precisa nem chegar perto com faca. E só ficar meio de lado, falar baixo, combinar como é que vai pegar o bicho, estratégia, estratégia. Ele nem precisa ver nem entender, mas sabe que é dele que a gente fala e pensa.
Olha, às vezes tinha vontade de se um galinho que vai morrer.
Ela já estava esperando, na hora que nós marcamos. Os seus cabelos brilhavam, douradinho de sereno.
Eita papo besta.
Mais olha lá. A Zélia pegou o galinho, coitado, até parou de agitar as penas. Mão no bico e a outra segurando por trás as pena da asa. E vai lá pro fundo. Ela diz que prefere discrição, mas a molecada até a cerca de madeira podre vai pulando pra ver a Zélia cortar o bicho. Também, ela sempre diz que quem ajudar a despenar e limpar, ela convida pra almoçar.
Por você tenho penado, minha vida era sofrendo, meu dormindor variava, no sonho estava te vendo.
Tava na hora já de ir buscar o meu franguinho lá no Tim Maia.
Na hora que nós partirmos, sorrindo ela foi dizendo, mas que cavalo tão lindo, que a ferragem vai batendo. Este é meu trovoada, já sabe o que estou fazendo. O macho estava raivoso, no freio estava mordendo, pois ele está adivinhando que vai pousar no sereno.
Peguei o troco do mercado de ontem e fui. No meio do caminho olhei pro pé pra lembrar que sai de meia e chinelo com um calor desses que fazia. Eita bicho mais burro. Passar de louco agora no meio de um domingo. Ser arremedado no bar até vai, já tava acostumado mesmo, mas se Maria passasse ali, na travessia da travessa. Ela às vezes compra frango lá de domingo também. Olha, fiquei ali bem dizer um tempão parado antes de atravessar a rua pra pegar o frango ou então para voltar pra casa e tirar a meia. Andei mais um cado, e meio que na esquina antes, o bar do Tim Maia, já tava ali, dava pra ver. A fumaça da churrasqueira de tambor, o povo tudo de bermuda e barriga de costeleta de porco, cerveja,e pinga. Aquelas barba tudo pra fazer e alguns já meio tombando no meio fio. Então, olha lá.
Sandália laranja, vestido azul, blusa laranjinha também. Cabelo amarrado com pauzinho, parece, descendo. De costas... Eu com minha meia no meu pé, calorzão desse. Ai, não dava.
Nem sei quanto tempo fiquei ali. Parado, sem ir nem voltar, sem respirar, nem piscar de normal da vida. Encostei-me no muro da viela então, e fiquei, esperei. Era Maria.
Ela foi, pegou o frango, ainda de costas pra mim. E virou. Pra mim, pra viela. Ai minha Nossa Senhora, e essa meia no pé! Cacilda, eu tenho que dá fim nesta moda! Arranquei as meia do jeito que tava no pé e escondi atrás do poste, quem passava na rua achava a coisa mais esquisita: o desespero era tamanho, de ter que tirar correndo, de elástico velho que prende na ponta do dedo, furo no calcanhar, até rasguei um pedaço. Se não fosse o muro, cabeça na guia de tombo repentino arriscava acontecer, mas arranhado de susto de desequilíbrio ficou no meu antebraço. Quando olhei de novo, ela já tava assim, uns seis passos de mim, ai meu Deus.
Mas não era ela não. Nem de longe parecia. Nem cabelo igual tinha. Nem gingado de Maria tinha, nem olhar de carinho fundo de Maria tinha.
Engraçado de como que a gente vê as pessoas que a gente quer, seja onde for que esteja a gente.
Os olhos dela encheu d’água, despediu com a voz tremendo, Adeus casa dos meus pais, adeus chão do rio pequeno.

