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Nome: Pão e Tu

Segunda-feira, Outubro 09, 2006

CAPÍTULO 8

Eu abri o olho de assim meio de uma vez ouvindo seu Alcides, que mora do lado de casa, tocando aquela viola junto com os amigos tomando uma pinguinha e cantando uma modas. É. O muro sem reboque e baixo ajuda a deixar a melodia entrar pela veneziana de ferro. Se ao menos vidro naquela janela tivesse eu colocado. Tá tampada só com essa tela anti-mosquito só. Aqui, vidro não precisa né? Calor faz demais.

Só às vezes no domingo quando eu passo do ponto no Tim maia, é que me deixava raivoso quando seu Alcides pegava sua viola com ypioca. Mas que culpa o homem tem pela minha cabeça que lateja que nem pipoca na panela ué?

E no canto da viola eu ia. Levando o começo do dia pra não sei onde ainda.

Eu arriei meu cavalo, quando estava escurecendo, pra roubar uma moreninha, na banda do rio pequeno. Eu cheguei na casa dela, meia noite mais ou menos.

Fim das contas é domingo. Dia do povo ficá contente. Eu também fico. Olha lá. Daqui da janela dava pra ver a galinho correndo lá no quintal da casa da dona Zélia, sabendo que seu destino de galinho e de pescoço inteiro é curto. Parece que o animal já sabe que vai morrer. E nóis não precisa nem chegar perto com faca. E só ficar meio de lado, falar baixo, combinar como é que vai pegar o bicho, estratégia, estratégia. Ele nem precisa ver nem entender, mas sabe que é dele que a gente fala e pensa.

Olha, às vezes tinha vontade de se um galinho que vai morrer.

Ela já estava esperando, na hora que nós marcamos. Os seus cabelos brilhavam, douradinho de sereno.

Eita papo besta.

Mais olha lá. A Zélia pegou o galinho, coitado, até parou de agitar as penas. Mão no bico e a outra segurando por trás as pena da asa. E vai lá pro fundo. Ela diz que prefere discrição, mas a molecada até a cerca de madeira podre vai pulando pra ver a Zélia cortar o bicho. Também, ela sempre diz que quem ajudar a despenar e limpar, ela convida pra almoçar.

Por você tenho penado, minha vida era sofrendo, meu dormindor variava, no sonho estava te vendo.

Tava na hora já de ir buscar o meu franguinho lá no Tim Maia.

Na hora que nós partirmos, sorrindo ela foi dizendo, mas que cavalo tão lindo, que a ferragem vai batendo. Este é meu trovoada, já sabe o que estou fazendo. O macho estava raivoso, no freio estava mordendo, pois ele está adivinhando que vai pousar no sereno.

Peguei o troco do mercado de ontem e fui. No meio do caminho olhei pro pé pra lembrar que sai de meia e chinelo com um calor desses que fazia. Eita bicho mais burro. Passar de louco agora no meio de um domingo. Ser arremedado no bar até vai, já tava acostumado mesmo, mas se Maria passasse ali, na travessia da travessa. Ela às vezes compra frango lá de domingo também. Olha, fiquei ali bem dizer um tempão parado antes de atravessar a rua pra pegar o frango ou então para voltar pra casa e tirar a meia. Andei mais um cado, e meio que na esquina antes, o bar do Tim Maia, já tava ali, dava pra ver. A fumaça da churrasqueira de tambor, o povo tudo de bermuda e barriga de costeleta de porco, cerveja,e pinga. Aquelas barba tudo pra fazer e alguns já meio tombando no meio fio. Então, olha lá.

Sandália laranja, vestido azul, blusa laranjinha também. Cabelo amarrado com pauzinho, parece, descendo. De costas... Eu com minha meia no meu pé, calorzão desse. Ai, não dava.

Nem sei quanto tempo fiquei ali. Parado, sem ir nem voltar, sem respirar, nem piscar de normal da vida. Encostei-me no muro da viela então, e fiquei, esperei. Era Maria.

Ela foi, pegou o frango, ainda de costas pra mim. E virou. Pra mim, pra viela. Ai minha Nossa Senhora, e essa meia no pé! Cacilda, eu tenho que dá fim nesta moda! Arranquei as meia do jeito que tava no pé e escondi atrás do poste, quem passava na rua achava a coisa mais esquisita: o desespero era tamanho, de ter que tirar correndo, de elástico velho que prende na ponta do dedo, furo no calcanhar, até rasguei um pedaço. Se não fosse o muro, cabeça na guia de tombo repentino arriscava acontecer, mas arranhado de susto de desequilíbrio ficou no meu antebraço. Quando olhei de novo, ela já tava assim, uns seis passos de mim, ai meu Deus.

Mas não era ela não. Nem de longe parecia. Nem cabelo igual tinha. Nem gingado de Maria tinha, nem olhar de carinho fundo de Maria tinha.

Engraçado de como que a gente vê as pessoas que a gente quer, seja onde for que esteja a gente.

Os olhos dela encheu d’água, despediu com a voz tremendo, Adeus casa dos meus pais, adeus chão do rio pequeno.

Domingo, Setembro 17, 2006

CAPÍTULO 7

Eu gostava de ficar é sozinha, mesmo.

Sem pai, sem mãe, sem mundo de ficar me controlando.

Caminhar na beira da praia, no meio do mato, no meio do mundo sem mundo nenhum pra me desviar. Eu queria era me encher de solidão.

Até que minha estrada passou pelo Zé.

O Zé sem palavras. Sem gesto. Zé em resumo era olhos. Só olhar, alucinado de olhar. Que parece que me tomavam, me carregavam prum onde não sei.

Eu na beira do rio, sentindo presença dos olhos de Zé sobre meu corpo. Não uma presença de ofensas, mas de oferensas inocentes. Zé, sentia eu, se ofertava àquele momento, de encontro solitário de um com o outro, nunca dois.

Nesses encontros desencontrados, Zé já caiu no riacho, despencou de árvore, bateu joelho, topou o dedão do pé, lascou a correr de abelha, já tropicou, caiu, raspou, riu, ficou sem graça.

Zé já se mostrou muito mais do que pensa.

CAPITULO 6

Maria.

“Sou encurvada na coluna. Tenho o olho esquerdo meio zarolho. Assim, de leve. Até gosto. É divertido! Tenho tanta cicatriz que já perdi a conta. Tenho tanto parente que já perdi a conta. Matei tanta formiga esmagada que já perdi a conta. Tomei tanta surra de vara da minha mãe que já perdi a conta. Gosto de flor. De todas. Já me apaixonei por uma orquídea. Quando menina. Pois é! Já espetei tanto o dedo em espinho de rosa que também já perdi a conta. Quando menina e quando adulta também. Mas nunca aprendo, e vou lá e espeto de novo. Gosto de enfiar os dedo na argila. Fazer boneco de argila que nunca existiu. Boneco que saiu de dentro da minha cabeça, passou pelos braços, mãos, dedos, unha, até chegar na argila. Aí é só deixar o vento levar a água do boneco, e secar. O vento já levantou minha saia no meio da feira. Ai, que vergonha! Vergonha dos menino dando risada, da mulher da barraca dando risada, dos homens dando risada safada, das frutas dando risada, do mundo dando risada. E eu? Eu caí. Na risada. Se o mundo mostra pra gente os dente do riso, a gente vai junto com ele.. Gosto de olhar no olho. Olhar pra mão de gente de idade. Nas mãos dá pra ver a vida, de passado. Gosto das pessoa. Nunca namorei. Mas já quis tantas vezes que já perdi a conta...”

Sábado, Setembro 02, 2006

CAPÍTULO 5

Tudo é vazio.

O entorno é página em branco.

Quisera eu escrever um traço seco sequer. Mas tudo me foge. Tudo se vai, como um sonho que se esquece, logo que se acorda.

Quisera eu lidar com simplicidade a saudade que Maria me bota ao goles largos goela abaixo, pelos bolsos, pelos poros, encrustada feito pedra.

Maria sempre foi, aos meus olhos secos, acompanhada pela distância, parceira das minhas visitas de paixão. Meus olhos marejados dos anestésicos em garrafas do bar do Tim Maia, eu tentando matar e alimentando esse monstro-coração que carrego como um parasita, depois que conheci Maria, pelos seus cheiros de roçar a nuca.

Mas por agora não me sobra uma linha, um traço.

Tudo o que é palavra não me sai da pele, tudo o que faz sentido é encalacrado na carcaça.

Talvez fosse mais fácil arrancar a couraça e colar a grosso modo nas folhas brancas, virgens de pensamentos meus.

Porque, desde hoje, descobri que me falta alfabeto, esqueci de minha lingua nativa, não sei mais de cor, as letras fugiram, varridas dessa sala fria...Sinto um desaprender a falar que trava a língua, a boca, a fala, o músculo, tendão, dedos, pele, carne, minha carne, minha Maria.

Maria virou meu trava língua.

E tudo que tento escrever, Maria me apaga da memória.

E fica solitária em meus pensamentos...

Quarta-feira, Agosto 30, 2006

CAPITULO 4

O amor é declarado de se ouvir sempre. Desde o sempre de antes do início dessa história.

Da procura incessante desse tal amor (transposto nela), até o fim dos tempos meus.

Pois pra mim, Maria, pão e tu é o que me bastaria.

Mas dentro do findo do homem cabe o eu.

E dentro dele recusei obstinado a solidão.

Mas ela não me recusou.

E nem me recusaram os desconselhos do velho, do patriarca, do meu responsável, do dono do sangue das minhas veias, por isso talvez não o reconheça como meu, e sim como extensão dele.

Eu sou sua extensão pai. E isso que me dói. Minha solidão começa em ti. Minha falta das palavras pro mundo, pra Maria, vem da tua boca. Da tua boca, pai.

Esse universo que me pesa.

E se não digo mais, e se não grito pelo não pesar, é porque tenho um silêncio familiar no peito e na garganta.

Segunda-feira, Agosto 28, 2006

CAPITULO 3

Caminhava...Destino bar do Tim Maia. Peripécias de pós-trabalho e finais de semana sem fim. Finais que demoram a findar.

Senta.

Espera.

"A de sempre, rapaz?"

Sons da rua. Somente.

"Rapaz?"

Sons da rua. De sempre.

"Não vai beber, porra!!!"

Olho cruza todo o balcão. Destino: Tim Maia. Silêncio de ambos. Cortado pela ação do dono do bar, que solicita ajuda ao seu xará famoso, com seus discos de trilha sonora pra Vira-copos.

"No Caminho do bem..."

Sentado, dedos entrecruzados, batucando por vezes, espera. Olhos agora para a vastidão da rua em frente ao boteco. Pessoas. Transeuntes. Transemundos.

Finalmente pede. Logo duas doses. Tim Maia dá um pulo. O do disco também.

Um gole, um pensamento, dois, o momento exato. Ela vai passar. Maria vai passar. E vou dizer. E ela vai se arrepender. A puta vai se arrepender...E vai voar passarinho pros meus braços-ninho...

Sente o vento. A mudança. Sente o cheiro. Tulipas. Sente o corpo aquecer, congelar. Sente a brisa balançando o vestido branco de Maria feito um sino. Sente o decote. Sente a pele marrom. Sente o suor de Maria. Sente o gosto de Maria que outrora foi seu. Mesmo que em pensamento. Sente as palavras pra Maria não ditas outro dia. Sente o toque de Maria quando ela disse que o queria. Não não disse. Não há toques. Mas ele sentiu. Sente o rasgar da faca do álcool garganta abaixo, cortando as palavras que encontrava no caminho. Sente o efeito do álcool e de Maria. E vê. E ela passa. E delira. E levanta. E bate o copo depois da última tragada-lâmina. E sente o vento bater nos cabelos de Maria. Que olha pra frente. Olhar de horizonte, sempre. Sorridente, sempre. Misteriosa, sempre. Sem ser sua pra sempre. Senta-se. Sente-se novamente no início. Sente o vulcão que adormeceu. Por instantes. Por agora. Sente a mão no ombro. De Maria. É de Maria! Uma voz. Tim Maia do bar. De queixa. De cobrança. De dívida. Ele de dúvidas sobre onde foi Maria.

Perdeu.

Perdido.

Mais duas, por favor.

Eu pago.

Já paguei...

"Ela partiu, e nunca mais voltou..."

CAPITULO 2

Eu tenho, eu sinto, palavras, palavras, frases inteiras, perambulando, correndo corpo, correndo cabeça, correndo peito, brincando, palavra pregada em qualquer canto escondido de dentro de eu, prontas, esperando, rebuscadas, simples, de tudo que é jeito, cor, cheiro, gosto, palavra embriagada de sentido, saindo pelos poros, pelos dedos, palavra de trás pra frente, inversa, em verso, prosa, antiga, nova, inventada, de fazer inveja, de tremer lábio, de derrubar o potentoso coração, todas, todas, TODAS FEITAS PRA MARIA, e todas porvir pra ela.E quando sinto que Maria aparece, e estou pronto pra chover palavra, transbordar prosa, sangrar meus versos...

Eu...

Me calo...

Não falo...

Tudo some...

Tudo...

Agora, nada...

Agora só treme boca, esfriam pés e mãos, Maria se torna meu trava-língua. Eu estátua. Vazio. Frio. Barril de Pólvora que não explode...

Balbucio um som que é silêncio, que não sai, sumiu, gota que escorre da testa, Maria olhando, só, me olhando, ai meu senhor, deus me acuda, e o esforço descomunal faz surgir um "bom dia" feito de escuro breu...

Maria já distante dali...

Sem ouvir.

CAPITULO 1a

"Às vezes eu sinto um cansaço, certo desespero que mói os desertos contínuos..."

E sobre seus ombros, carrega o mundo, o fundo de um, e sorri...

E solitária, vai-se...

E se dissolve em águas rasas, calores e fogueiras... Mas seu sorriso desperta outras paixões, Astro brilhante, iluminado, provocador...Destemperado e sutil...

Somos feito da mesma matéria que os sonhos são feitos...

Pelas ruas, à procura, ao encontro, de si, de ti, de quem...Dos cellos encantados de graves e agudos...

Notas?

Acordes, então!

Não vês que és pura a alma do encantado cantador?

Você ainda está aí?

Sim.

O tempo passou e a gente não percebeu...

PÃO E TU - CAP. 1

Uma Tulipa nasceu no peito de José, funda, entre artérias e amores antigos, quando viu naquele tapete de terra batida Maria desfilar seu dengo e seu decote, rumo à feira de domingo, cortejar frutas e legumes.

O cheiro, ah!, flor de maravilha, embebedava José. Lembrava dos passeios de criança, meninada correndo em meio aos jardins floridos de Seu Severo. Ficavam horas, muitas, deitados em meio às flores, o Sol de companheiro, comparando cheiros com as meninas da Vila.

Quando caiu em si novamente, José lembrou da tesoura, que cortava o cabelo do pequeno Malaquias.

E nem se apercebeu do leve corte na orelha direita do fedelho, provocando gritos estabanados da criança e da mãe, Dona Matilde, que pegou o menino pelo braço e saiu xingando o pobre Zé, sem se aperceber do corte "inovador" de seu filho, cabeça raspada pela metade, lado esquerdo comprido.

José ameaçou se preocupar, mas a lembrança de Maria, que passaria ali de novo, e de novo, e nos próximos domingos, não o deixava em paz.

E o perfume, ah! o perfume, o acompanharia por um bom tempo.